BARRA D’ALCÂNTARA, CIDADE QUE NASCEU PELA FÉ

por Interlegis — última modificação 22/05/2019 18h19
De acordo com a história oral, Barra D’Alcântara era uma chapada quase desabitada, onde só existiam duas casas (sendo uma do senhor José Raimundo dos Santos e outra do senhor José Pedro dos Santos). Existiam ali também algumas sepulturas de escravos.

Um jovem chamado Francisco Manoel de Oliveira, conhecido como Chico Mariano, filho de Inhuma do Piauí, afilhado e filho adotivo do Padre Raimundo Nonato de Oliveira Marques, andando nas festas religiosas de Valença, Novo Oriente, Elesbão Veloso, Caraíbas e toda a região do Vale do Sambito, conheceu uma jovem por nome Maria Veloso de Oliveira, que também freqüentavam as festas com seus pais. Logo, houve um namoro entre os dois e depois um casamento. O casal veio então morar na localidade São Pedro onde residiam os pais da jovem. Era dia 02 de novembro quando o senhor Chico Mariano convidou a sua esposa e sua família e foram até as sepulturas. Chegando lá encontraram várias pessoas rezando individualmente. Ele então convidou-as a rezarem juntos e dirigiu as primeiras palavras evangelizadoras pronunciando “Nosso Senhor Jesus Cristo disse: onde estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei entre eles”. E todos ouviram essas palavras e rezaram unidos o santo terço. Terminando a devoção, ele convidou-os para desmatarem aquele local, poucos aceitaram, mas marcaram o dia. Começaram então no ano de 1954 a festejar as novenas. Assim, o senhor Chico Mariano entrou em ação novamente e com a ajuda das pessoas, murou o cemitério, depois convidou o padre para celebrar a bênção do mesmo. As pessoas moravam longe e tinham dificuldade de chegar até o cemitério. Como não havia estrada, um mutirão fez os caminhos que ligam Barra D’Alcântara à Santa Helena. Fizeram barracas em voltas do referido cemitério para obrigar os romeiros e o padre. No dia 01 de novembro do ano de 1960, realizou-se a celebração da 1ª missa em Barra D’Alcântara em uma capelinha de palha dentro do cemitério, pelo vigário padre Raimundo Nonato de Oliveira Marques pároco de Valença, a qual pertencia Barra D’Alcântara na época. Foi uma grande festa religiosa, não havia festa dançante e nem outro tipo de diversão. Vendo que o povo tinha muita fé e devoção, o padre incentivou que fizessem uma capela dizendo: “Construam uma capela, pois onde se constrói uma igreja, havendo ordem e respeito, nasce um povoado e mais tarde, uma cidade”. 04 Em conjunto e com o senhor Chico Mariano na liderança, organizaram-se para a construção do templo, que foi construído com frente para o norte, porque só existiam casas nas localidades São Pedro e Alcântara, além de acreditarem que o povoado cresceria nessa direção. Do alto, onde foi construída a capela, tinha uma visão muito bonita com relação aos moradores daquelas localidades. Como a devoção nasceu no cemitério, no dia 02 de novembro, consagrado aos finados, o padre sugeriu que a padroeira fosse Nossa Senhora do Carmo, por ser protetora das almas. Os fiéis aceitaram e de imediato se deu a vinda da padroeira que tomou posse no dia 01 de novembro de 1962. O senhor José Raimundo dos Santos, posseiro das terras doou-as para a igreja que não trouxe problemas com os herdeiros, pois as terras ainda pertenciam ao Estado. O padre registrou na diocese de Teresina em nome de N.S. do Carmo e deu início ao loteamento para as pessoas construírem suas casas. A origem do nome Barra D’Alcântara vem da fazenda Alcântara cujo proprietário era João Alberto Soares, senhor de escravos muito respeitado na região. Devido a isso, era bem valorizada, já a parte “Barra” era desvalorizada, onde só servia para sepultar os escravos. Os senhores brancos e ricos dessas redondezas eram sepultados no cemitério de Valença, carregados até lá nos ombros de escravos. Com o tempo, o povo começou a construir casas no fundo da igreja, casas essas que foram se organizando em ruas, hoje o centro da cidade. O padre preocupou-se com a educação desse povo e o senhor Chico Mariano, sempre a frente, fez uma lista com o nome de mais de cem crianças de toda vizinhança, levou para o prefeito municipal de Valença, pediu um colégio para a referida localidade. O prefeito ainda não tinha conhecimento da existência desse lugar, mesmo assim autorizou o próprio Chico Mariano a trabalhar como professor, construíram uma escolinha aberta coberta de palha, não tinha paredes e a noite servia de dormitório para os porcos e bodes. Naquela época, Ioiô era vice-prefeito de Valença e residindo em Várzea Grande, o padre Marques sendo seu amigo e compadre, pediu-lhe um colégio com estrutura para a localidade. Esse colégio foi concedido em 1972 que em homenagem ao Padre Marques, deram-lhe o seu nome. Vários anos se passaram e o povoado se desenvolveu cada vez mais rápido e, segundo conta a entrevista com a primeira prefeita, Ivonete Marques de Sousa Guedes (1996), a população começou a cobrar das lideranças políticas a emancipação do povoado que foi aprovado com a realização de um 05 Plebiscito no dia 15 de dezembro de 1993, para a criação do município, sendo homologado a lei de criação LEI Nº 4680 de 26 de janeiro de 1994, por ordem do governador do Estado, o excelentíssimo senhor Antônio de Almeida Freitas Neto, desmembrando do município de Várzea Grande ao qual pertencia. Como comprova a ATA DA SOLENIDADE DE COMPROMISSO E POSSE E DE INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE BARRA D’ALCÂNTARA, DO ESTADO DO PIAUÍ, a primeira prefeita tomou posse no dia 1º de janeiro de mil novecentos e noventa e sete (1997), conjunto com os vereadores também eleitos no dia 03/10/1996. Repetindo as palavras da carta do padre Roberto Gottardo, em homenagem feita pelo colégio Diocesano, na capital do estado do Piauí - Teresina, em 28 de julho de 2013, questionamos o que seria de Barra D’Alcântara sem a bravura e sem a infatigável dedicação do senhor Chico Mariano? Sua casa e sua história pessoal é um arquivo vivo; um legado inestimável. Ao longo dos seus 90 anos de vida, acumulou muitas experiências, vitórias e alegrias. Hoje, a história de Barra D’Alcântara mudou. O progresso está chegando à cidade, a população dispõe de serviços de saúde, educacionais e sociais de qualidade. Acreditamos que a história se constrói a partir de nossas práticas cotidianas. E consciente dessa convicção, procuramos deixar bem claro a grande contribuição de pessoas muito importantes e responsáveis: Os percussores, Chico Mariano e Padre Marques, que deram início a uma história que jamais terá fim.